fui atacada pela fuvest, volto quando o ataque terminar [depois do dia 23 de nov] _________________________________________________________
Daleos acordou com o sol quente batendo em seu rosto. A janela sem cortinas não reprimia a claridade do sol quente de verão e Daleos a odiava – sim, a janela – por isso. Sentou no colchão fino devagar e percebeu que a gengiva estava ligeiramente inchada embora não sangrasse mais. Doía.
Coçou a cabeça, levantou, se espreguiçou. Marco apareceu, o chamou pra tomar café da manhã. Sentaram-se à mesa.
- Não vou comer não, valeu.
- Cê que sabe. Mas enfim, ontem não deu pra conversar direito... Como vai a vida?
- Uma bosta.
- Nenhum novo objetivo? Algo pra ir atrás?
- Vou sair da cidade.
- E pretende ir pra onde?
- Pro sul.
- Fazer?
- Dizem que lá as coisas são mais baratas. De repente eu dou uma arrumada na minha vida.
- Isso não me soa coisa tua.
- Lá não é tão quente.
- Ótimo motivo.
- E é mesmo. Não agüento mais. Parece que é verão o ano inteiro.
- Cê tem amigos lá? Porque aqui cê tem vários, não é tão difícil se arranjar. Mas lá fica foda, sem amigos, sem apoio...
- Tenho. Tem alguém que... Pode me ajudar.
- Pela sua cara, é uma mulher.
- Marco, eu vou indo. Vou passar num pronto-socorro e consertar essa merda. Obrigado por me deixar dormir aqui e tudo mais.
Marco notou a mudança de assunto e algo que ele não faria era insistir em um assunto falando com Daleos. Haviam convivido durante anos e anos e Marco sabia muito bem que o respeito de Daleos não era conquistado pela amizade, mas pela força. O irônico é que ser evidentemente mais forte que Daleos trazia mais brigas do que ser mais fraco. Daleos era um homem teimoso e turrão, orgulhoso demais para admitir conviver com alguém mais forte, então desafiava e brigava com quem quer que fosse até que conseguisse derrubá-lo. E Marco... Bom, Marco nunca foi forte. Submeter-se à Daleos garantia alguma proteção e evitava surras desnecessárias. E mesmo agora, Marco ainda agradecia pela proteção de Daleos.
Daleos se despediu de Marco, saiu do apartamento e foi até um pronto-socorro. Esperou pelo menos duas horas e meia até que o atendessem e passassem qualquer coisa muito ardida no machucado para, depois, o mandarem esperar. Teria de ficar quieto durante pelo menos uma hora para o que quer que aquilo fosse surtir efeito e pudessem costurar sua boca, desinflamar, fazer limpeza ou o que quer que significasse as palavras bizarras que o médico tinha dito. Passados quarenta minutos, sua boca estava sangrando de novo. Não agüentava mais aquilo.
- Ô garoto, minha boca...
- Espere sua vez. - disse o enfermeiro que fora chamado por Daleos, e, se virando para um homem mais velho, pediu - Venha, senhor.
- Eu cheguei antes.
- Moço, você realmente tem que esperar sua vez. – replicou o enfermeiro
- Eu só preciso que passem uma linha na minha boca pra eu ir embora. Até você consegue fazer isso.
- Moço, por favor, espere sua vez.
Daleos cruzou os braços e inspirou fundo, mantendo – ou tentando manter – a calma. Tinha um certo respeito por hospitais. Não gostava de ficar puto dentro deles e causar confusão, mas estava começando a ficar realmente irritado com a demora. Não bastasse o tempo que já havia passado esperando para ser atendido a primeira vez, agora esperava novamente. E passaram cinco, dez minutos. Nada. Incomodado, voltou a chamar o enfermeiro, que o mandou esperar novamente. Sua gengiva sangrava, pulsava. Ele engolia o sangue, o gosto amargo e quente lhe descia pela garganta de um jeito estranho.
Quinze minutos, vinte. O pé batendo insistentemente no chão, Daleos com os braços cruzados apertando contra o corpo, contendo sua raiva. Era um local para tomar conta das pessoas de graça. Tinha de mostrar algum respeito. Um bar, uma praça, eram uma coisa. Um pronto-socorro era outra completamente diferente.
Trinta minutos. Quis chamar o enfermeiro. Nada, o garoto passou reto. A gengiva não ardia mais, mas ainda sangrava. Aquilo estava irritando. Quarenta minutos e Daleos perdendo a paciência. Olhou para o enfermeiro com cara de poucos amigos e chamou:
- Garoto, faz favor, pega uma linha, uma agulha, uma anestesia de merda e costura a porra da minha gengiva, é dois minutos e eu não agüento mais ficar aqui.
- MOÇO! SUA BOCA TÁ SANGRANDO!
- MAS JURA?
O enfermeiro pediu para que ele esperasse, correu e trouxe um pano impecavelmente limpo com um gelo por dentro.
- Eu tenho que pedir ao senhor para colocar esse pano e pressionar, só pra parar de sangrar. Não passaram nada aí? Não tá certo isso...
- Eu sei que não ta, caralho. Chama a merda do médico.
- Já vou chamar, espere um pouco.
E Daleos esperou. Estava sendo paciente. Estava sendo absurdamente paciente. Mas então cinco minutos passaram e o enfermeiro não voltou. E então dez. E então quinze.
- Olha, o médico vai te atender dentro de uns minutinhos. – disse, ao voltar.
- Dentro de uns minutinhos? – os dentes de Leo rangiam, sentiu o corpo inteiro tensionado. Já não agüentava mais aquela putaria toda de hospital.
- É, senhor, estamos muito cheios hoje, você tem que entender...
- Dentro de uns minutinhos?
- Veja bem, eu tenho que ir ali atender aquela menina e já...
- PRO INFERNO COM SEUS MINUTINHOS!
Vermelho. Era a única cor que Daleos enxergava. Perdendo completamente o controle, levantou-se num impulso, agarrou os cabelos do enfermeiro e bateu o rosto dele contra uma mesa. Então bateu de novo e de novo. Quando o soltou, o garoto caiu inconsciente no chão, com o rosto machucado. Foi tão rápido que ninguém pode defendê-lo, mas logo que entenderam o que acabara de acontecer os homens ali presentes - mesmo os machucados - foram tentar contê-lo. Mais dois segundos e Daleos estaria espancando o médico.
A primeira reação de Daleos foi segurar a cabeça de um dos homens que vinha em sua direção e puxar contra seu joelho, para então esmurrar outro e finalmente quase quebrar o pescoço do terceiro, quando um segurança, o dobro do tamanho de Leo, o segurou puxando seus braços para trás e gritou em seu ouvido para se acalmar.
Daleos não parou de se debater, e não fosse a baixa estatura dele, o segurança não teria conseguido tirá-lo do hospital. Segurou os braços de Daleos nas costas dele, levou até a rua e jogou-o na calçada.
- E NÃO VOLTA MAIS AQUI, SEU FILHO DA PUTA!
O segurança chutou Daleos e voltou a entrar no hospital.
Daleos tomou alguns segundos para conseguir se levantar. Não porque sentisse dor – a raiva lhe subira a cabeça de tal forma que dor era um sentimento inexistente -, mas porque seus membros realmente não estavam cooperando.
Quando finalmente conseguiu se levantar até quis voltar ao hospital e ensinar uma lição ao segurança, uma viatura se aproximava. Ela encostou, os policiais desceram e Daleos tratou de sair de lá a passos largos. Era bruto, não burro.
quarta-feira, 5 de novembro de 2008
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