Terminou de dar o nó na gravata numa velocidade que transcendia as tartarugas. Mirou seus próprios olhos no espelho, passou a mão na barba recém-feita. Tinha um rosto anguloso, forte. Seria pertinente comparar os traços de seu rosto com os de um cavalo. Não que Raon fosse feio, muito pelo contrário. Alto, tinha os ombros largos e o maxilar bem marcado, lábios muito bem delineados e um par de olhos negros amendoados. Seus cabelos eram cacheados e curtos, as sobrancelhas espessas, de forma a lhe dar um ar sóbrio, sério, imponente. A única coisa que lhe contrariava as feições era o vazio que levava no olhar.
Colocou o terno com cuidado medido, bateu de leve para tirar a poeira que lhe caíra desde o dia anterior. Com o mesmo esmero ajeitou o sobretudo sobre os ombros ao vesti-lo – o tecido daquele casaco sempre lhe repuxava os ombros largos, todavia não tinha paciência ou tempo para ir comprar outro – e pegou sua maleta preta e impecavelmente limpa. Alguém que não o conhecesse diria que ele era uma vítima do transtorno obsessivo compulsivo. Alguém que o conhecesse diria “É o Raon.” e isso bastaria como argumento para não se comentar ou contrariar seu metodismo.
Saiu de seu apartamento e chamou o elevador. Voltou-se para a porta, trancou as quatro trincas, pegou o chapéu que sempre deixava pendurado no mancebo do hall e colocou sobre a mesinha que ficava embaixo do espelho. Arrumou o cabelo e colocou o chapéu. Abaixou a aba. Aquele chapéu tinha a maldita mania de, ao ser tirado da cabeça dos outros, revirar sua própria aba para cima. Raon dobrou bem para baixo tendo a certeza de que isso não aconteceria enquanto ele estivesse em sua cabeça.
O elevador chegou, ele entrou. Ali era o sétimo andar. Não lembrava de ter morado em qualquer outro andar que não o sétimo. Não que Raon se importasse – acreditava não ligar -, mas sempre morara no sétimo andar. Recostou-se no espelho do fundo do elevador, apertou o subsolo, observou a câmera.
Um velhinho entrou no elevador. Parecia simpático, extrovertido. Talvez se Raon não possuísse todo o ar apático que possuía ele tivesse puxado conversa. Raon nunca se dera conta do que seus olhos passavam às pessoas. Aquela indiferença. Ele não era indiferente ao mundo, pelo menos não era da última vez que pensara nisso. Mas desde que algo aconteceu, ele estava anestesiado. Contudo, esse não é o tipo de algo que é um fato marcante na vida de alguém. Esse é o tipo de algo que é arrastado por horas, dias, semanas. E então, depois de meses carregando esse algo, você nota que esse algo te mudou. Todavia, o que quer que tenha mudado, mudou tanto e de forma tão sólida que já não vale a pena questioná-la. Esse era Raon. Se transformando aos poucos... Cada dia mais quieto, com um olhar mais impassível, com uma rotina mais condicionada. Talvez seu sonho inconsciente fosse se tornar um andróide.
O elevador chegou. Ele abriu a porta, saiu pelo subsolo, caminhou até seu carro. Estava sujo, empoeirado. Não lembrava a ultima vez que tivera tempo para deixá-lo lavando, ou mesmo só passar no lava-rápido. Não era prioridade. Entrou no carro levemente incomodado, todavia, uma vez ali dentro, o exterior do veículo já se apagara de sua memória. A memória da rotina é assim, curta. Tudo se faz e nada se pensa, é só a repetição de movimentos já executados. Dessa mesma forma, colocou a chave na ignição, ligou o carro e saiu com ele da garagem. Talvez tivesse cumprimentado o porteiro. Não se lembrava.
As rodas deslizaram pelo asfalto. Sua visão periférica já tinha se deteriorado completamente. Só via sua frente agora. Via até muito a frente, é verdade, mas só vê seu próprio futuro quem não muda de vida. E a vida desse homem não mudaria tão cedo. Pelo menos era nisso que uma grande parte dele – da qual ele mesmo não tomava consciência – acreditava.
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1 comentários:
Muito bom, você sabe que eu piro lendo esse tipo de narrativa. Só esperava mais partes depois desse tempo no submundo dos virtualmente excluídos que eu vivi 8D
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