IV

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Cap.II [parte I - Antigo Amigo - D]

Caminhou pela rua ainda escura. Sentia-se mais tranqüilo. Mordia um pedaço de pano quase limpo para estancar o sangue. Já nem doía tanto. Um filete de sangue secava no canto de sua boca. Tinha um pequeno sorriso nos lábios. Coisa difícil de acontecer.
Sentiu o vento quente passar por si. Não agüentava mais aquela cidade.
- Daleos? É você?
Olhou para o lado. Um cara alto, barba rala, bigode, cavanhaque. Um cigarro na boca, um isqueiro nas mãos.
- Cê tá um lixo.
- O sujo falando do mal lavado...
Marco riu. Deu uns tapinhas no ombro de Daleos.
- Arranjei uma casa. – disse Marco, tragando longamente seu cigarro.
- Arrombou, você quer dizer?
- Não, idiota, arrumei mesmo. Mulher, sabe como é...
- Tá trabalhando?
- Mais ou menos... Tá tarde, cê tem onde dormir?
- Eu pareço que tenho onde dormir?
- Vambora então, vagabundo. Hoje você vai dormir num colchão.
Caminharam algumas quadras, logo chegaram num prédio cinza, pixado, com vazamentos, infiltrações. Entraram num elevador largo, parecia de carga. Talvez um dia aquele prédio tivesse sido um armazém ou um ateliê, os espaços eram grandes, e sem divisórias. O apartamento mesmo só tinha dois cômodos, um banheiro e um outro espaço enorme em que Marco havia construído, meio de mal jeito, uma divisória de madeira para separar o quarto.
- Lucia, trouxe um amigo pra jantar.
A mulher que apareceu não era bonita nem feia. Seu rosto era comum, seu corpo era mediano. Olhos e cabelos escuros. Mas sua voz... Belíssima.
- Você nunca me avisa quando vai trazer... Oi!
Daleos acenou com a cabeça. Percebeu o olhar dela de desconfiança. Não estava com a melhor das aparências mesmo, o sangue no canto da boca não ajudava.
- E você queria que eu te avisasse como? Me dá um celular então. Leo, o banheiro é por ali, cê não quer pelo menos fazer essa barba? Tá horrível...
Daleos esticou a mão, pegou o cavanhaque de Marco e puxou.
- E ISSO tá muito melhor, né?
- Ah, não me enche, se não não te dou de comer.
- Vai se fuder. – disse, e rindo, foi até o banheiro.
Entrar debaixo d’água do chuveiro depois de tanto tempo foi quase um orgasmo. Sentia que sua alma estava sendo lavada, deixando aquela água meio cinza ir embora pelo ralo. Fazer sua barba foi ainda melhor. Ter o rosto limpo de novo, liso. Mas de tudo, o que mais agradava era cortar o cabelo. Ele estava tão comprido que já cobria sua nuca, e cortá-lo o mais curto possível e sem cuidado era uma das coisas que Daleos mais gostava de fazer. Por fim, bochechou um pouco d’água para limpar um pouco o buraco quase fechado em sua gengiva. Agora podia voltar a se sentir um ser humano, não um animal.
Era verdade que Daleos não gostava de ganhar coisas de quem não podia dar, mas a sua camisa estava em tal estado que não pode recusar quando Marco insistiu em lhe dar uma nova. E a nova nem era tão boa assim, já estava desbotada, todavia, estava inteira.
Após o longo processo de “re-humanização” de Leo, finalmente sentaram-se à mesa para comer. Era óbvio que Lucia estava mais segura agora, embora ainda se notasse a hesitação de ter um homem desconhecido dentro de casa.
- Onde se conheceram? – perguntou Lucia em certo ponto do jantar, querendo quebrar um pouco o silêncio.
- Na rua. – Daleos respondeu
Sentiu Marco engasgar e tossir alto o suficiente para ela não ouvir.
- Ele fazia ponta em uma obra, e me deu uma ajuda lá. – disse Marco. – Acabamos no mesmo ramo por uns tempos.
Daleos até se importava com mentiras, porém nada tinha com a vida de Marco e da nova mulher dele. Ficou quieto comendo e percebendo que o buraco em sua gengiva não tinha sido fechado. Logo sentiu o gosto amargo do sangue na boca, engoliu, terminou de comer e apressou-se em ir até o banheiro. Abriu a boca e olhou no espelho. Percebeu que aquilo estava pior do que ele tinha achado que estava.
- O que aconteceu com a tua boca? – perguntou Marco, encostado na porta do banheiro.
- Arranquei um dente podre.
- Vamos até o pronto-socorro.
- Marco, olha pra mim. Tenho cara de menininha?
Marco riu e deu de ombros, “Você quem sabe”. Daleos sabia que Marco já estava se acostumando com a vida de gente, mas para quem vive na rua todo dia, ficar indo em hospital por coisa idiota é besteira. Daleos preferiu tomar alguns goles de uma vodka fuleira e barata, enfiar um pedaço de pano na boca e dormir assim mesmo. Dia seguinte, se desse, ele passava em um hospital público pra costurar aquilo.

2 comentários:

- - disse...

bem gosto daqui do seu espaço tb.
qual seu orkut?
se sentir-se á vontade para me passa-lo.

--> lunacreep@hotmail.com
: )

The Joker disse...

Eu gosto de como você escreve, me lembra alguém que quando chega cansado em casa quer só e simplesmente descançar. Você me fez querer escrever, e fazia um tempo que eu não sentia isso.

Você vai atualizar sempre?