Heles caminhou com cuidado sobre o telhado, abaixada, se segurando onde podia. Achou o seu lugar, sentou-se. Olhou para o céu. Tão limpo. Estrelado. A lua crescente despontava em um canto mais escuro da vastidão azul. Sentiu-se pequena, insignificante. Até gostava disso. Sentir como se seus problemas fossem pequenos demais para tomar nota.
Deitou-se no telhado. Com as mãos atrás da cabeça, observou o céu. Aquele manto enorme que cobria a todos. Azul marinho. E então se percebeu sorrindo sem saber porquê. Não estava apaixonada, não tinha conseguido um emprego novo ou uma casa melhor. Talvez sorrisse de admiração de uma criação que nada tinha a ver com a humanidade. E Deus também pouco tinha em comum com a criação do universo. A via Láctea, aquela galáxia absurda, podia ser só um pingo d’água em outro mundo. Podia ser insignificante. Ela mesmo devia ser tão mínima quanto um grão de areia na Terra, que dirá em outra dimensão, onde um galáxia talvez se resumisse em um átomo.
Ela continuava sorrindo. Nada tinha mudado. A vida continuava vazia, a alma continuava incompleta, os sonhos inacabados, os desejos insaciados. Não tinha sua outra metade, ou as outras partes de si. Não tinha um lar ou um objetivo de vida. E com todos os poréns, com toda a tristeza, com todo realismo, ela sorria.
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