Não fazia a barba há pelo menos cinco dias. Não dormia em um colchão há pelo menos uma semana. Não comia algo decente há pelo menos duas. Seu corpo doía inteiro, mas ele não era de se incomodar com coisa pouca. O que enchia o saco era o dente careado no fundo da boca. Doía pra caralho.
Entrou num bar, sentou no balcão, pediu uma dose de cachaça. Não era um bar chique, a barba bagunçada e as olheiras fundas não eram nada que chamasse a atenção. Daleos virou o copo de uma vez. Puta dor infernal na merda do dente. Encheu a mão no balcão, o barman olhou com descaso.
- Quer outra?
Daleos acenou com a cabeça. Não tinha um tostão no bolso e nem pretendia pagar, então era melhor beber tudo que podia pra depois não ficar com o orgulho ferido de fugir. Se fugisse.
Olhou em volta com calma. Sentia sua gengiva pulsar incomodamente e tentava, sem sucesso, mastigar o próprio dente. Calor dos infernos. Dor dos infernos. Bar dos infernos.
Três da manhã. Vários bêbados distribuídos. Um grupo de meninos tomando alguma coisa que não deviam. Riam, falavam alto, tumultuavam. Daleos não estava prestando atenção até sentir uma mão feminina em seu ombro. Era uma menina do grupo. Chapada.
- Então... você topa?
Olhou pra ele tentando se fazer sensual, mas a situação era ridícula. Drogados. Não que ele fosse evitar uma briga, todavia ainda mantia o mínimo da civilidade: não agredia mulheres a menos que elas o agredissem.
Levantou, virou as costas para o balcão e começou a andar para ir embora. Imediatamente ouviu uma explosão de gargalhadas dos jovens, e logo depois o barman o chamando não tão gentilmente quanto deveria para que ele pagasse o que devia.
Continuou andando. Ouviu os passos rápidos de alguém que lhe puxou a camisa gritando algo relacionado a dinheiro. Seu reflexo foi fechar os punhos e virar as costas da mão no filho da puta que se achou no direito de puxá-lo. O barman caiu, ele começou a chutar, chutar, chutar.
Os jovens não estavam dopados ao ponto de se sentirem covardes, estavam dopados ao ponto de acharem que podiam salvar o mundo. Um tentou pegar Daleos pelos braços, o puxou pra trás. Um segundo depois sentia o nariz sangrando pela cabeçada que tinha recebido.
Daleos derrubou-o também, e todos os outros rapazes, até que um acertou-lhe um murro na boca. Ele parou por um instante. Mastigou algo. Cuspiu o dente. Sorriu, agradeceu, e derrubou o último menino.
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1 comentários:
me quebrou de ladinho.
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