IV

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Cap.III [parte I - Pronto-Socorro - D]

fui atacada pela fuvest, volto quando o ataque terminar [depois do dia 23 de nov] _________________________________________________________


Daleos acordou com o sol quente batendo em seu rosto. A janela sem cortinas não reprimia a claridade do sol quente de verão e Daleos a odiava – sim, a janela – por isso. Sentou no colchão fino devagar e percebeu que a gengiva estava ligeiramente inchada embora não sangrasse mais. Doía.
Coçou a cabeça, levantou, se espreguiçou. Marco apareceu, o chamou pra tomar café da manhã. Sentaram-se à mesa.
- Não vou comer não, valeu.
- Cê que sabe. Mas enfim, ontem não deu pra conversar direito... Como vai a vida?
- Uma bosta.
- Nenhum novo objetivo? Algo pra ir atrás?
- Vou sair da cidade.
- E pretende ir pra onde?
- Pro sul.
- Fazer?
- Dizem que lá as coisas são mais baratas. De repente eu dou uma arrumada na minha vida.
- Isso não me soa coisa tua.
- Lá não é tão quente.
- Ótimo motivo.
- E é mesmo. Não agüento mais. Parece que é verão o ano inteiro.
- Cê tem amigos lá? Porque aqui cê tem vários, não é tão difícil se arranjar. Mas lá fica foda, sem amigos, sem apoio...
- Tenho. Tem alguém que... Pode me ajudar.
- Pela sua cara, é uma mulher.
- Marco, eu vou indo. Vou passar num pronto-socorro e consertar essa merda. Obrigado por me deixar dormir aqui e tudo mais.
Marco notou a mudança de assunto e algo que ele não faria era insistir em um assunto falando com Daleos. Haviam convivido durante anos e anos e Marco sabia muito bem que o respeito de Daleos não era conquistado pela amizade, mas pela força. O irônico é que ser evidentemente mais forte que Daleos trazia mais brigas do que ser mais fraco. Daleos era um homem teimoso e turrão, orgulhoso demais para admitir conviver com alguém mais forte, então desafiava e brigava com quem quer que fosse até que conseguisse derrubá-lo. E Marco... Bom, Marco nunca foi forte. Submeter-se à Daleos garantia alguma proteção e evitava surras desnecessárias. E mesmo agora, Marco ainda agradecia pela proteção de Daleos.
Daleos se despediu de Marco, saiu do apartamento e foi até um pronto-socorro. Esperou pelo menos duas horas e meia até que o atendessem e passassem qualquer coisa muito ardida no machucado para, depois, o mandarem esperar. Teria de ficar quieto durante pelo menos uma hora para o que quer que aquilo fosse surtir efeito e pudessem costurar sua boca, desinflamar, fazer limpeza ou o que quer que significasse as palavras bizarras que o médico tinha dito. Passados quarenta minutos, sua boca estava sangrando de novo. Não agüentava mais aquilo.
- Ô garoto, minha boca...
- Espere sua vez. - disse o enfermeiro que fora chamado por Daleos, e, se virando para um homem mais velho, pediu - Venha, senhor.
- Eu cheguei antes.
- Moço, você realmente tem que esperar sua vez. – replicou o enfermeiro
- Eu só preciso que passem uma linha na minha boca pra eu ir embora. Até você consegue fazer isso.
- Moço, por favor, espere sua vez.
Daleos cruzou os braços e inspirou fundo, mantendo – ou tentando manter – a calma. Tinha um certo respeito por hospitais. Não gostava de ficar puto dentro deles e causar confusão, mas estava começando a ficar realmente irritado com a demora. Não bastasse o tempo que já havia passado esperando para ser atendido a primeira vez, agora esperava novamente. E passaram cinco, dez minutos. Nada. Incomodado, voltou a chamar o enfermeiro, que o mandou esperar novamente. Sua gengiva sangrava, pulsava. Ele engolia o sangue, o gosto amargo e quente lhe descia pela garganta de um jeito estranho.
Quinze minutos, vinte. O pé batendo insistentemente no chão, Daleos com os braços cruzados apertando contra o corpo, contendo sua raiva. Era um local para tomar conta das pessoas de graça. Tinha de mostrar algum respeito. Um bar, uma praça, eram uma coisa. Um pronto-socorro era outra completamente diferente.
Trinta minutos. Quis chamar o enfermeiro. Nada, o garoto passou reto. A gengiva não ardia mais, mas ainda sangrava. Aquilo estava irritando. Quarenta minutos e Daleos perdendo a paciência. Olhou para o enfermeiro com cara de poucos amigos e chamou:
- Garoto, faz favor, pega uma linha, uma agulha, uma anestesia de merda e costura a porra da minha gengiva, é dois minutos e eu não agüento mais ficar aqui.
- MOÇO! SUA BOCA TÁ SANGRANDO!
- MAS JURA?
O enfermeiro pediu para que ele esperasse, correu e trouxe um pano impecavelmente limpo com um gelo por dentro.
- Eu tenho que pedir ao senhor para colocar esse pano e pressionar, só pra parar de sangrar. Não passaram nada aí? Não tá certo isso...
- Eu sei que não ta, caralho. Chama a merda do médico.
- Já vou chamar, espere um pouco.
E Daleos esperou. Estava sendo paciente. Estava sendo absurdamente paciente. Mas então cinco minutos passaram e o enfermeiro não voltou. E então dez. E então quinze.
- Olha, o médico vai te atender dentro de uns minutinhos. – disse, ao voltar.
- Dentro de uns minutinhos? – os dentes de Leo rangiam, sentiu o corpo inteiro tensionado. Já não agüentava mais aquela putaria toda de hospital.
- É, senhor, estamos muito cheios hoje, você tem que entender...
- Dentro de uns minutinhos?
- Veja bem, eu tenho que ir ali atender aquela menina e já...
- PRO INFERNO COM SEUS MINUTINHOS!
Vermelho. Era a única cor que Daleos enxergava. Perdendo completamente o controle, levantou-se num impulso, agarrou os cabelos do enfermeiro e bateu o rosto dele contra uma mesa. Então bateu de novo e de novo. Quando o soltou, o garoto caiu inconsciente no chão, com o rosto machucado. Foi tão rápido que ninguém pode defendê-lo, mas logo que entenderam o que acabara de acontecer os homens ali presentes - mesmo os machucados - foram tentar contê-lo. Mais dois segundos e Daleos estaria espancando o médico.
A primeira reação de Daleos foi segurar a cabeça de um dos homens que vinha em sua direção e puxar contra seu joelho, para então esmurrar outro e finalmente quase quebrar o pescoço do terceiro, quando um segurança, o dobro do tamanho de Leo, o segurou puxando seus braços para trás e gritou em seu ouvido para se acalmar.
Daleos não parou de se debater, e não fosse a baixa estatura dele, o segurança não teria conseguido tirá-lo do hospital. Segurou os braços de Daleos nas costas dele, levou até a rua e jogou-o na calçada.
- E NÃO VOLTA MAIS AQUI, SEU FILHO DA PUTA!
O segurança chutou Daleos e voltou a entrar no hospital.
Daleos tomou alguns segundos para conseguir se levantar. Não porque sentisse dor – a raiva lhe subira a cabeça de tal forma que dor era um sentimento inexistente -, mas porque seus membros realmente não estavam cooperando.
Quando finalmente conseguiu se levantar até quis voltar ao hospital e ensinar uma lição ao segurança, uma viatura se aproximava. Ela encostou, os policiais desceram e Daleos tratou de sair de lá a passos largos. Era bruto, não burro.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Cap.II [parte IV - Tempestade - H]

Em uma das paredes do quarto de Heles havia uma grande janela de vidro – que não abria – curva, arredondada. De dentro do seu quarto, era como se houvesse um lugar especial para se sentar na “soleira” da janela. E ali estava ela, recostada ao grosso vidro. Admirando as gotas de chuva.
Passavam das quatro da manhã, e a chuva estava forte. Batia contra o vidro fazendo um barulho um tanto assustador. Heles agradeceu por ali não ser frio o suficiente para chover granizo.
Amava a chuva, adorava a noite, e a lua crescente lhe agradava os olhos – lembrava os momentos bons que já tivera -, mas estava triste. Não era por Simon e Armand terem viajado no dia anterior, embora isso lhe causasse um aperto no coração. Não sabia exatamente porquê, mas aquela chuva toda e o céu negro traziam uma névoa de nostalgia e um emaranhado de lembranças tão bagunçado que ela não conseguiria separar e entender o que havia acontecido.
- Heles...?
Tomou um susto, virou o rosto em direção a sua porta. Suspirou de alívio.
Em sua porta, uma menina de cinco anos. Loira de cabelos dourados claros, olhos azuis e bochechas rosadas. Tinha medo nos olhos e um coelho marrom e branco de pelúcia nas mãos.
- Belle, que susto... O que foi? – Isabelle correu para os braços de Heles que a abraçou forte – Medo da tempestade?
Isabelle acenou com a cabeça. Heles lhe beijou as faces e sorriu ternamente. Se tivesse uma filha um dia, queria que fosse como ela.
- Posso dormir aqui...?
Heles sorriu com satisfação.
- Deixe-me pensar no seu caso. – colocou a mão no queixo, fez uma cara de pensativa por um ou dois segundos – É claro que pode.
- O senhor Bourbon também pode?
- Senhor Bourbon... – franziu o cenho por um segundo antes de olhar para o coelho – Ah! O ilustre senhor Bourbon! Pode, pode sim. Agora vamos que sua mãe não vai me deixar levantar mais tarde só porque uma tempestade assustadora não nos deixou dormir.
Isabelle se atirou na cama de Heles, que fechou as pesadas cortinas azuis para abafar o som da chuva. Se deitou e abraçou Belle como se fosse sua filha.
Não havia passado uma hora quando Élise, uma mulher encorpada, forte, bateu à porta de Heles com firmeza.
- Hel, desculpe te acordar, mas preciso que você vá arrumar o quarto do final do corredor agora.
Heles mal abrira os olhos quando a porta de seu quarto se fechou. Se sentou na cama tentando despertar os sentidos, Belle se mexeu.
- Tá de noite...
- Volte a dormir, Belle. Já, já eu volto, ta bom?
- To com medo.
A chuva continuava forte, de forma que Heles não teve coragem de insistir para que ela voltasse a dormir. Deixou que a acompanhasse para arrumarem o quarto, mas quando ouviram o som dos passos firmes de Élise na escada Isabelle correu para seu quarto. Não queria levar bronca da mãe por não estar na cama àquela hora.
Alguém seguia Élise. Tinha passos mais leves que os dela.
- Heles, está tudo arrumado?
- Está sim, senhora.
- Esse é Tarso, será nosso inquilino por algum tempo.
- Muito prazer, senhor.
O homem tinha idade para ser seu pai. Alguns frios de cabelo branco, o resto do cabelo tão negro quantos seus olhos. Nariz acentuado, pele alva e um aspecto simpático.
- O prazer é meu, senhorita.
- Quando precisar de algo, é com Heles que você deve falar. Claro que não a essa hora da noite, mas...
- Peço desculpas novamente pela hora imprópria em que cheguei, mas houve problemas na estrada por causa da chuva...
- Tudo bem, senhor. Amanhã esclareço as regras da pensão com você, sim?
Élise encaminhou Tarso para o quarto, ele agradeceu, ela fechou a porta. Fez um sinal para Heles segui-la até a cozinha. Se sentaram à mesa.
- Escute. Se ouvir qualquer coisa estranha, quero que vá imediatamente ao meu quarto e bata na minha porta. Grite se for preciso.
- Élise, se está com medo do que ele pode fazer, porque abriu a porta para ele?
- Por que esqueci que Simon resolveu viajar e levar meu único filho homem com ele. Mas tudo bem. Vou ligar para um amigo vir até aqui e passar a noite. Sei que é tarde, mas não há muito que eu possa fazer. Você vá ficar lá em cima, e por favor fique atenta. Se possível, não durma até que eu bata em sua porta pra avisar que meu amigo chegou. E tranque o quarto das meninas por fora.
- Élise... Tudo bem que ele é um estranho, mas você não está exagerando?
- Eu conheço os olhos dos homens, Heles. E aquele homem pode até ser simpático, mas tenho medo do que vejo nos olhos dele.
Heles ficou meio assustada com Élise, mas não questionou. Fez o que foi pedido. No dia seguinte enviaria uma carta à Simon pedindo que voltasse o mais rápido possível e esperava que ele não interpretasse errado.
Coisa que ele faria. Sempre fazia.

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Eu sei, demorei cinco milhões de anos pra voltar a escrever. Dessa vez não tive nenhum problema em casa. O que aconteceu mesmo foi que fiquei travada nesse capítulo por esse mês todo que passou desde o último.
Espero que gostem.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Cap.II [parte III - Máquina - R]

Terminou de dar o nó na gravata numa velocidade que transcendia as tartarugas. Mirou seus próprios olhos no espelho, passou a mão na barba recém-feita. Tinha um rosto anguloso, forte. Seria pertinente comparar os traços de seu rosto com os de um cavalo. Não que Raon fosse feio, muito pelo contrário. Alto, tinha os ombros largos e o maxilar bem marcado, lábios muito bem delineados e um par de olhos negros amendoados. Seus cabelos eram cacheados e curtos, as sobrancelhas espessas, de forma a lhe dar um ar sóbrio, sério, imponente. A única coisa que lhe contrariava as feições era o vazio que levava no olhar.
Colocou o terno com cuidado medido, bateu de leve para tirar a poeira que lhe caíra desde o dia anterior. Com o mesmo esmero ajeitou o sobretudo sobre os ombros ao vesti-lo – o tecido daquele casaco sempre lhe repuxava os ombros largos, todavia não tinha paciência ou tempo para ir comprar outro – e pegou sua maleta preta e impecavelmente limpa. Alguém que não o conhecesse diria que ele era uma vítima do transtorno obsessivo compulsivo. Alguém que o conhecesse diria “É o Raon.” e isso bastaria como argumento para não se comentar ou contrariar seu metodismo.
Saiu de seu apartamento e chamou o elevador. Voltou-se para a porta, trancou as quatro trincas, pegou o chapéu que sempre deixava pendurado no mancebo do hall e colocou sobre a mesinha que ficava embaixo do espelho. Arrumou o cabelo e colocou o chapéu. Abaixou a aba. Aquele chapéu tinha a maldita mania de, ao ser tirado da cabeça dos outros, revirar sua própria aba para cima. Raon dobrou bem para baixo tendo a certeza de que isso não aconteceria enquanto ele estivesse em sua cabeça.
O elevador chegou, ele entrou. Ali era o sétimo andar. Não lembrava de ter morado em qualquer outro andar que não o sétimo. Não que Raon se importasse – acreditava não ligar -, mas sempre morara no sétimo andar. Recostou-se no espelho do fundo do elevador, apertou o subsolo, observou a câmera.
Um velhinho entrou no elevador. Parecia simpático, extrovertido. Talvez se Raon não possuísse todo o ar apático que possuía ele tivesse puxado conversa. Raon nunca se dera conta do que seus olhos passavam às pessoas. Aquela indiferença. Ele não era indiferente ao mundo, pelo menos não era da última vez que pensara nisso. Mas desde que algo aconteceu, ele estava anestesiado. Contudo, esse não é o tipo de algo que é um fato marcante na vida de alguém. Esse é o tipo de algo que é arrastado por horas, dias, semanas. E então, depois de meses carregando esse algo, você nota que esse algo te mudou. Todavia, o que quer que tenha mudado, mudou tanto e de forma tão sólida que já não vale a pena questioná-la. Esse era Raon. Se transformando aos poucos... Cada dia mais quieto, com um olhar mais impassível, com uma rotina mais condicionada. Talvez seu sonho inconsciente fosse se tornar um andróide.
O elevador chegou. Ele abriu a porta, saiu pelo subsolo, caminhou até seu carro. Estava sujo, empoeirado. Não lembrava a ultima vez que tivera tempo para deixá-lo lavando, ou mesmo só passar no lava-rápido. Não era prioridade. Entrou no carro levemente incomodado, todavia, uma vez ali dentro, o exterior do veículo já se apagara de sua memória. A memória da rotina é assim, curta. Tudo se faz e nada se pensa, é só a repetição de movimentos já executados. Dessa mesma forma, colocou a chave na ignição, ligou o carro e saiu com ele da garagem. Talvez tivesse cumprimentado o porteiro. Não se lembrava.
As rodas deslizaram pelo asfalto. Sua visão periférica já tinha se deteriorado completamente. Só via sua frente agora. Via até muito a frente, é verdade, mas só vê seu próprio futuro quem não muda de vida. E a vida desse homem não mudaria tão cedo. Pelo menos era nisso que uma grande parte dele – da qual ele mesmo não tomava consciência – acreditava.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Cap.II [parte II - Meu Verdadeiro Refúgio - V]

Queridos leitores (não tantos assim, mas enfim),
Encarecidamente peço desculpas pela demora da continuação. Não pretendo fazer mais isso. A verdade mesmo é que o uruguaio teve uns problemas de saúde - ele tem umas crises de bronquite as vezes -, e essa ultima foi meio foda. Levei ele ao hospital e tal, e como os dois mexicanos trabalham o tempo todo (e acreditem, o tempo todo é O TEMPO TODO MESMO), eu acabei cuidando do pobre.
Não, não rola clima algum entre eu e ele, até porque, como eu já disse, o uruguaio não se faz entender. Aproveitei que ele teve que ficar aos meus cuidados pra ver se ensinava algo de português pra ele - falar sem sotaque, eu digo.
Enfim. Já está tudo bem agora, então volto pra cá.
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Acordou seminu e fedendo dentro de uma caçamba de lixo. Vestia só as calças, e seu corpo havia assimilado o cheiro de enxofre. Sentia uma forte dor de cabeça. Tinha batido em algum lugar quando pulou na caçamba no dia anterior. Saiu com dificuldade. Tinha desmaiado, e agora o sol já estava a pino. “Deve ser meio-dia”, pensou consigo mesmo.
Passou a mão na cabeça e observou seu próprio estado. Sujo, muito sujo, mas vivo. Tinha corrido até entrar no beco e se jogar na caçamba. Não sabia como os caras não o tinham achado, mas ficava feliz pela burrice alheia.
Lembrou-se de Chris. Tirou a parte grossa da sujeira de seu corpo com as mãos e pensou se ele tivera a sorte de trazer todos os caras consigo, e não deixado nenhum para explodir os miolos de seu amigo. Não tinha celular nem maneiras de contatá-lo. E ali, em pé encostado na caçamba, notou que precisava urgentemente de cuidados. Banho, roupas.
Procurou em sua mente seus amigos que não eram nômades como ele. Não poderia pedir ajuda a nenhum. Os que não estavam mortos o queriam morto. Então lembrou dela. Respirou profundamente com uma inquietação que aumentava à medida que o ar entrava em seus pulmões. Chutou a caçamba, machucou o pé, xingou. Odiava pedir ajuda à ela. Odiava, odiava. “Bom...” – pensou – “É isso ou continuar fedendo e só com as calças.”
Sua caminhada até o prédio dela não foi agradável. O sol pálido de seu outono o incomodava, tal qual os olhares das pessoas à sua volta. Aquele jeito das mulheres apertarem suas bolsas contra o próprio corpo temendo que ele as atacasse.
Chegou finalmente ao prédio de cinco andares. Primeiro apertou timidamente o botão do interfone. Não tendo resposta, e já irritado, enfiou o dedo com força e segurou, até que uma voz mais nervosa do que ele atendesse:
- FALA, DEMÔNIO.
- É o Vic. – e, notando que ela gritaria seu nome inteiro em seguida, já interpôs - É O VIC.
- Tá bom, tá bom. Que tá fazendo aqui?
- Preciso de uma força.
Ela não perguntou. Apertou o botão do interfone que abria o portão, e logo ele estaria à sua porta, sem nem os calçados, fedendo à enxofre e com a pele manchada de sujeira. Ela o olharia, inquieta, fingindo não estar preocupada com ele. E ele a olharia, inquieto, fingindo não estar preocupado com ela.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Cap.II [parte I - Antigo Amigo - D]

Caminhou pela rua ainda escura. Sentia-se mais tranqüilo. Mordia um pedaço de pano quase limpo para estancar o sangue. Já nem doía tanto. Um filete de sangue secava no canto de sua boca. Tinha um pequeno sorriso nos lábios. Coisa difícil de acontecer.
Sentiu o vento quente passar por si. Não agüentava mais aquela cidade.
- Daleos? É você?
Olhou para o lado. Um cara alto, barba rala, bigode, cavanhaque. Um cigarro na boca, um isqueiro nas mãos.
- Cê tá um lixo.
- O sujo falando do mal lavado...
Marco riu. Deu uns tapinhas no ombro de Daleos.
- Arranjei uma casa. – disse Marco, tragando longamente seu cigarro.
- Arrombou, você quer dizer?
- Não, idiota, arrumei mesmo. Mulher, sabe como é...
- Tá trabalhando?
- Mais ou menos... Tá tarde, cê tem onde dormir?
- Eu pareço que tenho onde dormir?
- Vambora então, vagabundo. Hoje você vai dormir num colchão.
Caminharam algumas quadras, logo chegaram num prédio cinza, pixado, com vazamentos, infiltrações. Entraram num elevador largo, parecia de carga. Talvez um dia aquele prédio tivesse sido um armazém ou um ateliê, os espaços eram grandes, e sem divisórias. O apartamento mesmo só tinha dois cômodos, um banheiro e um outro espaço enorme em que Marco havia construído, meio de mal jeito, uma divisória de madeira para separar o quarto.
- Lucia, trouxe um amigo pra jantar.
A mulher que apareceu não era bonita nem feia. Seu rosto era comum, seu corpo era mediano. Olhos e cabelos escuros. Mas sua voz... Belíssima.
- Você nunca me avisa quando vai trazer... Oi!
Daleos acenou com a cabeça. Percebeu o olhar dela de desconfiança. Não estava com a melhor das aparências mesmo, o sangue no canto da boca não ajudava.
- E você queria que eu te avisasse como? Me dá um celular então. Leo, o banheiro é por ali, cê não quer pelo menos fazer essa barba? Tá horrível...
Daleos esticou a mão, pegou o cavanhaque de Marco e puxou.
- E ISSO tá muito melhor, né?
- Ah, não me enche, se não não te dou de comer.
- Vai se fuder. – disse, e rindo, foi até o banheiro.
Entrar debaixo d’água do chuveiro depois de tanto tempo foi quase um orgasmo. Sentia que sua alma estava sendo lavada, deixando aquela água meio cinza ir embora pelo ralo. Fazer sua barba foi ainda melhor. Ter o rosto limpo de novo, liso. Mas de tudo, o que mais agradava era cortar o cabelo. Ele estava tão comprido que já cobria sua nuca, e cortá-lo o mais curto possível e sem cuidado era uma das coisas que Daleos mais gostava de fazer. Por fim, bochechou um pouco d’água para limpar um pouco o buraco quase fechado em sua gengiva. Agora podia voltar a se sentir um ser humano, não um animal.
Era verdade que Daleos não gostava de ganhar coisas de quem não podia dar, mas a sua camisa estava em tal estado que não pode recusar quando Marco insistiu em lhe dar uma nova. E a nova nem era tão boa assim, já estava desbotada, todavia, estava inteira.
Após o longo processo de “re-humanização” de Leo, finalmente sentaram-se à mesa para comer. Era óbvio que Lucia estava mais segura agora, embora ainda se notasse a hesitação de ter um homem desconhecido dentro de casa.
- Onde se conheceram? – perguntou Lucia em certo ponto do jantar, querendo quebrar um pouco o silêncio.
- Na rua. – Daleos respondeu
Sentiu Marco engasgar e tossir alto o suficiente para ela não ouvir.
- Ele fazia ponta em uma obra, e me deu uma ajuda lá. – disse Marco. – Acabamos no mesmo ramo por uns tempos.
Daleos até se importava com mentiras, porém nada tinha com a vida de Marco e da nova mulher dele. Ficou quieto comendo e percebendo que o buraco em sua gengiva não tinha sido fechado. Logo sentiu o gosto amargo do sangue na boca, engoliu, terminou de comer e apressou-se em ir até o banheiro. Abriu a boca e olhou no espelho. Percebeu que aquilo estava pior do que ele tinha achado que estava.
- O que aconteceu com a tua boca? – perguntou Marco, encostado na porta do banheiro.
- Arranquei um dente podre.
- Vamos até o pronto-socorro.
- Marco, olha pra mim. Tenho cara de menininha?
Marco riu e deu de ombros, “Você quem sabe”. Daleos sabia que Marco já estava se acostumando com a vida de gente, mas para quem vive na rua todo dia, ficar indo em hospital por coisa idiota é besteira. Daleos preferiu tomar alguns goles de uma vodka fuleira e barata, enfiar um pedaço de pano na boca e dormir assim mesmo. Dia seguinte, se desse, ele passava em um hospital público pra costurar aquilo.

Cap.I [parte IV - Heles]

Heles caminhou com cuidado sobre o telhado, abaixada, se segurando onde podia. Achou o seu lugar, sentou-se. Olhou para o céu. Tão limpo. Estrelado. A lua crescente despontava em um canto mais escuro da vastidão azul. Sentiu-se pequena, insignificante. Até gostava disso. Sentir como se seus problemas fossem pequenos demais para tomar nota.
Deitou-se no telhado. Com as mãos atrás da cabeça, observou o céu. Aquele manto enorme que cobria a todos. Azul marinho. E então se percebeu sorrindo sem saber porquê. Não estava apaixonada, não tinha conseguido um emprego novo ou uma casa melhor. Talvez sorrisse de admiração de uma criação que nada tinha a ver com a humanidade. E Deus também pouco tinha em comum com a criação do universo. A via Láctea, aquela galáxia absurda, podia ser só um pingo d’água em outro mundo. Podia ser insignificante. Ela mesmo devia ser tão mínima quanto um grão de areia na Terra, que dirá em outra dimensão, onde um galáxia talvez se resumisse em um átomo.
Ela continuava sorrindo. Nada tinha mudado. A vida continuava vazia, a alma continuava incompleta, os sonhos inacabados, os desejos insaciados. Não tinha sua outra metade, ou as outras partes de si. Não tinha um lar ou um objetivo de vida. E com todos os poréns, com toda a tristeza, com todo realismo, ela sorria.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Cap.I [parte III - Raon]

Não era um cara friorento. Fora da cama, mal ligava para o frio. Mas ali, deitado de bruços, tentando ficar confortável em seu colchão, quase tremia. Tinha ao menos uma colcha e dois edredons em cima de si, e ainda assim, não esquentava.
Suspirou longamente, sentiu os dentes baterem. Empurrou os cobertores, levantou-se. Ali, de pé, não sentia frio. Cogitou dormir assim. Quase conseguiu rir da idéia absurda.
Caminhou até o banheiro, olhou no relógio. Quatro da manhã. Ele devia dormir por pelo menos mais três horas antes de se arrumar para o trabalho. Nem sabia como conseguira um trabalho com aquela disposição. Não conseguia dormir direito há dias, há tempos. E também não conseguia se lembrar do que o fizera não dormir.
Vez ou outra, em seus sonhos, ouvia uma voz doce. Era a única coisa que o instigava a tentar se recordar do que havia acontecido, do que mudara de lá para cá. Colocou as mãos debaixo d’água e lavou o rosto. Pensou em já deixar a barba feita. Não... Não estava com vontade.
Voltou ao quarto, sentou-se na cama. De repente as horas de sono pareciam muito mais longas que as horas que deveria ficar acordado. Deitou-se, cobriu-se, sonhou acordado. E então, com frio, adormeceu.